Nota Técnica sobre o caso de contaminação de bebida por metanol

INTRODUÇÃO

Os casos de bebidas contaminadas por metanol que chegaram à mídia envolveram principalmente destiladas, como uísque, vodca e gim. O Ministério da Saúde informa que, historicamente, o Brasil registrava cerca de 20 casos de intoxicação por metanol ao longo de um ano. Em 2025, até o momento, já foram notificados de 43 suspeitas de intoxicação por metanol entre agosto e setembro, sendo 10 confirmadas em São Paulo e 4 casos em investigação em Pernambuco. De acordo com a Nota Técnica Conjunta nº 360/2025 – DVSAT/SVSA/MS esta situação é classificada como um Evento de Saúde Pública (ESP), exigindo o fortalecimento da sensibilidade do sistema de vigilância e da atenção à saúde em todo o território nacional, para a detecção precoce e o tratamento adequado dos casos.

O metanol é um líquido incolor e volátil, utilizado como matéria-prima na produção de solventes, tintas, resinas e biodiesel. A intoxicação pode ocorrer por ingestão, como é o caso que estamos enfrentando, inalação ou absorção cutânea.

QUAL A DIFERENÇA ENTRE O METANOL E ETANOL

O metanol e o etanol são ambos álcoois, ou seja, compostos orgânicos que possuem o grupo funcional hidroxila (-OH) ligado a um carbono saturado. Ambos pertencem aos álcoois de cadeia curta, como mostra a imagem a seguir:

Metanol:  CH3OH       –        Possui 1 carbono (C)

Etanol: C2H5OH         –        Possui 2 carbonos (C)

Essas semelhanças fazem com que ambos apresentem propriedades físicas similares, tais como:

  • Líquidos à temperatura ambiente;
  • Altamente solúveis em água;
  • Voláteis;
  • Incolores;
  • Inflamáveis.

Tanto o metanol quanto o etanol são metabolizados inicialmente pelo álcool desidrogenase (enzimas que realizam a remoção dos hidrogênios) no fígado. A grande diferença, entretanto, está nos produtos finais gerados por cada substância.

  • Etanol  >  acetaldeído  >  ácido acético (metabolizável)
  • Metanol   >  formaldeído  >  ácido fórmico (tóxico)

Para o ser humano o perigo reside na forma como ele é metabolizado pelo organismo, gerando o ácido fórmico, provocando a acidose metabólica, comprometendo órgãos vitais e o funcionamento geral do corpo.

COMO O METANOL PODE ESTAR PRESENTE NAS BEBIDAS DESTILADAS

O processo de fabricação de bebidas alcoólicas destiladas pode ser resumido em três etapas principais: preparo do mosto, fermentação alcoólica e destilação.

1. Preparo do Mosto (matéria-prima)

Esta fase inicial visa à seleção da matéria-prima, que pode ser grãos (como cevada, milho ou trigo), frutas ou cana-de-açúcar, com o objetivo de preparar o mosto (líquido rico em açúcares). Este processo se divide nas etapas abaixo, de acordo com a matéria-prima utilizada:

  • Grãos – passam por uma etapa de malteação (germinação controlada) e mostura (trituração e cozimento com água quente) para converter o amido em açúcares fermentáveis, como glicose e maltose, por meio da ação de enzimas.
  • Frutas/Cana – o processo consiste em prensagem ou extração para obter o suco ou caldo/melaço, já rico em açúcares.
  • Ajuste e filtração – o mosto é ajustado, por exemplo, em pH e densidade, e frequentemente filtrado para remover sólidos indesejados.
2. Fermentação Alcoólica

Durante a fermentação, adicionam-se leveduras, responsáveis por consumir os açúcares fermentáveis presentes no mosto, formando etanol e subprodutos. Nesta etapa, forma-se naturalmente a formação de metanol, principalmente quando se utilizam matérias-primas ricas em pectina, como frutas (exemplo: uva, maçã, ameixa). Em bebidas produzidas a partir de grãos ou batata, a formação de metanol é menor, mas ainda pode ocorrer em pequena escala.

O controle desta etapa é basicamente temperatura e tempo, visando otimizar o rendimento e o perfil de sabor desejado.

3. Destilação

Esta é a etapa crucial que diferencia as bebidas destiladas das fermentadas, pois é na destilação que se concentra o teor alcoólico e se definem as características de cada produto. O processo consiste no aquecimento do mosto fermentado, em que as substâncias são separadas de acordo com seus diferentes pontos de ebulição. A principal fase da destilação é o fracionamento, também chamado de cortes.

Durante a destilação, o destilador separa as frações por ponto de ebulição, sendo elas:

  • Cabeça” (Foreshots): fração inicial, rica em compostos mais voláteis, como metanol e acetona, que é descartada por razões de qualidade e segurança.
  • “Coração” (Heart): fração central e desejada, rica em etanol e nos congêneres que conferem o sabor característico da bebida.
  • “Cauda” (Tails): fração final, contendo compostos menos voláteis, como álcoois superiores.

Os principais controles desse processo são temperatura por estágio, pressão do equipamento, velocidade da destilação e o corte preciso das frações.

ADULTERAÇÃO CLANDESTINA

Além da contaminação decorrente de falhas nos processos de fermentação e destilação, deve-se considerar também a possibilidade de adulteração intencional por meio da utilização de metanol de origem industrial.

O metanol é amplamente empregado como solvente em resinas, tintas, combustível e como intermediário químico, sendo comercializado em grandes volumes para aplicações não alimentícias. Entretanto, práticas ilícitas, como desvio de cargas, contrabando ou reaproveitamento irregular de resíduos industriais contendo metanol, podem propiciar aos fraudadores uma fonte alternativa de insumo a baixo custo.

Nessas circunstâncias, o metanol pode ser intencionalmente adicionado a bebidas alcoólicas com o objetivo de aumentar o teor alcoólico aparente e/ou reduzir custos de produção. Alternativamente, o etanol empregado em processos clandestinos para elevação do teor alcoólico pode estar contaminado por metanol, uma vez que os dois compostos são indistinguíveis à inspeção visual, o que dificulta a detecção sem análise laboratorial adequada.

A ingestão de pequenas quantidades pode ser suficiente para causar cegueira permanente. Estima-se que doses entre 4 e 10 mL já podem provocar lesões irreversíveis, enquanto 30 mL de metanol puro podem ser letais.

Portanto, a contaminação por metanol em bebidas deve ser analisada não apenas sob o aspecto de falhas de processo fabril, mas também sob a ótica do uso criminoso de metanol industrial em etapas de envase clandestino, prática que requer intensificação das ações de fiscalização, rastreabilidade e controle da comercialização de solventes no país.

QUAIS SÃO OS PONTOS CRÍTICOS NA FABRICAÇÃO DE BEBIDAS ALCOÓLICAS DESTILADAS

  • Fermentação – Nesta etapa, ocorre a formação natural de metanol, que deve ser separado do etanol. O metanol é mais volátil e evapora antes do etanol, mas, se o processo for mal conduzido, pode causar contaminação perigosa.
  • Destilação – Esta etapa é responsável por separar as frações e os diferentes componentes formados durante a fermentação. A fração “cabeça” – como é comumente chamada a parte rica em compostos mais voláteis, como metanol, acetaldeído etc., provenientes da fermentação – deve ser completamente descartada ou coletada separadamente para usos não alimentares, a fim de evitar a contaminação da bebida.
  • Armazenamento/envase clandestino – Envolve diluições ou adulterações que podem introduzir metanol ou outros contaminantes.

Para o controle dos riscos associados à produção de bebidas alcoólicas, é fundamental a atuação de um profissional da área de Química devidamente habilitado. Esse profissional deve assegurar que o controle de qualidade e as etapas do processo produtivo ocorram sob condições rigorosamente controladas, como temperatura, tempo de destilação e monitoramento da densidade — geralmente realizado por sensores ou densímetros.

É imprescindível que o processo de fabricação esteja em conformidade com a legislação vigente. Nesse contexto, as análises físico-químicas exercem um papel essencial, especialmente para assegurar que o teor de metanol esteja abaixo dos limites máximos estabelecidos pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

O MAPA elaborou um cartilhão sobre bebidas, anexo à Instrução Normativa SDA/MAPA nº 140/2024, no qual constam os limites mínimos e máximos de contaminantes orgânicos e inorgânicos permitidos em bebidas alcoólicas.

Entre esses parâmetros, destaca-se o controle do álcool metílico (metanol), que possui limite máximo estabelecido em 20 mg/100 mL de álcool anidro para as bebidas alcoólicas destiladas como uísque, vodca e gim. Esses valores estão definidos no Decreto nº 6.871/2009, no artigo 61, §2º, bem como nas Instruções Normativas MAPA nº 29/2012 (arts. 8 e 9) e ANVISA nº 160/2022.

LOGÍSTICA REVERSA

Outro ponto crítico associado ao crescente aumento de bebidas adulteradas é o reaproveitamento indevido de embalagens originais. Garrafas e frascos de bebidas alcoólicas são facilmente encontrados à venda na internet, sob o pretexto de coleção ou artesanato, mas que, na prática, podem ser reutilizados para o envase de produtos piratas. Essa prática dificulta a identificação pelo consumidor, que muitas vezes se depara com embalagens aparentemente legítimas, mas contendo líquidos adulterados ou falsificados.

Diante desse cenário, é fundamental que os fabricantes de bebidas alcoólicas estabeleçam e fortaleçam programas de logística reversa, voltados à coleta, reciclagem e destinação ambientalmente adequada das embalagens pós-consumo. Além de atender aos princípios da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010), tais iniciativas contribuiriam diretamente para a redução da disponibilidade de garrafas originais no mercado paralelo, dificultando a ação de falsificadores.

Medidas complementares podem incluir:

  • Campanhas de conscientização junto ao consumidor sobre a importância da devolução das embalagens;
  • Incentivos econômicos para o retorno de garrafas às indústrias;
  • Parcerias com cooperativas de reciclagem, que ampliem a destinação correta e transparente desses materiais.

Assim, a logística reversa não apenas fortalece a segurança sanitária, mas também promove ganhos ambientais e sociais, contribuindo para um ciclo mais sustentável de produção e consumo no setor de bebidas, especialmente as alcoólicas.

QUAIS OS SINTOMAS DA INTOXICAÇÃO POR METANOL

O metanol é um líquido incolor e volátil, utilizado como matéria-prima na produção de solventes, tintas, resinas e biodiesel. O risco associado ao metanol decorre de seu metabolismo no organismo humano. Após a absorção, o metanol é oxidado pela enzima álcool desidrogenase a formaldeído, que subsequentemente é convertido em ácido fórmico por ação do aldeído desidrogenase. O acúmulo de ácido fórmico resulta em acidose metabólica, condição que compromete o funcionamento de órgãos vitais, especialmente o sistema nervoso central e o nervo óptico, podendo levar a consequências irreversíveis ou fatais.

Os sintomas de intoxicação por metanol são: náusea, tontura, mal-estar, dores abdominais, vômitos, visão turva ou perda da visão, confusão mental, coma e até morte.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública emitiu uma nota oficial no dia 29/09/2025, orientando que, em caso de suspeita de intoxicação por metanol, é fundamental buscar imediatamente os serviços de emergência médica e contatar pelo menos uma das instituições a seguir:

Para o Rio de Janeiro

Centro de Controle de Intoxicações – CCIn de Niterói
Telefone Emergência: 0800-722-6001
Telefone: (21) 2629-9033

  • Ligue para o Centro de Controle de Intoxicações de São Paulo (CCI): (11) 5012-5311 ou 0800-771-3733 – de qualquer lugar do país;

Até que as investigações sejam concluídas e a causa da contaminação seja devidamente esclarecida, recomenda-se evitar o consumo de bebidas alcoólicas destiladas.

Referências Bibliográficas:

BRASIL. Decreto nº 6.871, de 4 de junho de 2009. Regulamenta a Lei nº 8.918, de 14 de julho de 1994, que dispõe sobre a padronização, a classificação, o registro, a inspeção, a produção e a fiscalização de bebidas. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 5 jun. 2009.

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa nº 15, de 31 de março de 2011. Estabelece o padrão de identidade e qualidade para bebidas alcoólicas. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 1 abr. 2011.

BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Portaria nº 586, de 16 de maio de 2023. Dispõe sobre os padrões de qualidade e identidade de bebidas alcoólicas. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 17 maio 2023.

BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Nota oficial – Governo Federal estabelece protocolo de ação diante de intoxicações por metanol. Disponível em: https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/noticias/nota-oficial-2014-governo-federal-estabelece-protocolo-de-acao-diante-de-intoxicacoes-por-metanol. Acesso em: 1 out. 2025.

SUPERINTERESSANTE. Metanol: o que é, como vai parar em bebidas alcoólicas e por que pode ser fatal. Disponível em: https://super.abril.com.br/saude/metanol-o-que-e-como-vai-parar-em-bebidas-alcoolicas-e-por-que-pode-ser-fatal/#google_vignette. Acesso em: 1 out. 2025.

Ministério da Saúde. Ministério da Saúde instala sala de situação para monitorar casos de intoxicação por metanol. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/outubro/ministerio-da-saude-instala-sala-de-situacao-para-monitorar-casos-de-intoxicacao-por-metanol. Acesso em: 03 out. 2025.

Brasil. Nota Técnica Conjunta nº 360/2025 – DVSAT/SVSA/MS. [S.l.], 2025. Acesso em: 03 out. 2025.

BISPO, E. da S.; OLIVEIRA, E.; OLIVEIRA, E. M. Tecnologia de bebidas: matéria-prima, processamento e aspectos da qualidade. 2. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015. Acesso em: 03 out. 2025.

BRASIL. Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010. Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos; altera a Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998; e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 3 ago. 2010.

CONSELHO FEDERAL DE QUÍMICA. Metanol: o que é esse composto que tem provocado intoxicações e por que ele é inapropriado para consumo humano. Disponível em: https://cfq.org.br/noticia/metanol-o-que-e-esse-composto-que-tem-provocado-intoxicacoes-e-por-que-ele-e-inapropriado-para-consumo-humano/. Acesso em: 03 out. 2025.

DISTILLED BEVERAGES – PRODUCTION AND QUALITY CONTROL / BEBIDAS FERMENTO-DESTILADAS – PRODUÇÃO E CONTROLE DE QUALIDADE. [S.l.], [s.d.]. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/312784275_DISTILLED_BEVERAGES_-PRODUCTION_AND_CONTROL_OF_QUALITY_in_portuguese_BEBIDAS_FERMENTO-DESTILADAS-_PRODUCAO_E_CONTROLE_DE_QUALIDADE. Acesso em: 03 out. 2025.